OPINIÃO
Governar Equilibrar | FOLHAMAX
“Prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” — Raul Seixas
Vivemos tempos em que se reage antes de refletir. A primeira impressão virou sentença, e o vídeo de quinze segundos pesa mais do que qualquer reflexão de quinze páginas. Assim, a declaração do prefeito Abilio Brunini — “Se depender de nós, Cuiabá vai ter mais igreja do que bar” — rapidamente virou combustível para polêmicas, ironias e indignações instantâneas.
Para parte da sociedade, a frase acenou ao conservadorismo religioso; para outra, soou como ataque ao setor do entretenimento, à vida noturna — justamente um dos grandes motores econômicos e culturais da cidade. Antes mesmo que se compreendesse o contexto, a frase se espalhou. E o contexto é que o mesmo prefeito conduziu a recente atualização da Lei do Silêncio — aprovada após mais de duas décadas de desatualização —, estabelecendo novos parâmetros para festas, bares, sons automotivos e eventos noturnos.
Segundo o próprio prefeito: “Nosso objetivo é encontrar um ponto de equilíbrio entre o direito ao entretenimento, que movimenta a economia da cidade, e o direito ao sossego da população.” Mas, como ocorre no tribunal da internet, fez-se barulho — e pouca pergunta.
O problema não está apenas na fala, mas na resposta automática que ela provoca. Ninguém parece querer saber o que a frase realmente quer dizer. Como se define que haverá “mais igrejas que bares”? Vai haver incentivo a um setor? Restrições a outro? Haverá critérios urbanísticos, econômicos ou sociais para isso? Como se faz sem sufocar o direito de ambos existirem?
Essas são as perguntas que deveriam ser feitas. Mas pausar virou crime.
Ao invés de se prender a frases soltas, a sociedade deveria exigir respostas estruturais: quais projetos para reabilitação de dependentes químicos estão sendo propostos? Qual o papel das instituições religiosas? Qual a política pública para o setor noturno? Há incentivo? Fiscalização proporcional? Escuta?
Isso é governança pública: mediar direitos legítimos, estruturar debates, estabelecer regras. Não se trata de defender ou atacar o prefeito. Trata-se de exigir mais da sociedade.
A cada esquina digital, surgem especialistas em tudo — em liturgia, em decibéis, em política urbana. Trata-se da síndrome de Dunning-Kruger em sua forma mais aguda — onde os que menos sabem são os que mais vociferam. A superficialidade virou virtude. O conteúdo completo, um incômodo. A crítica virou performance. A opinião, autoafirmação. Como adverte Byung-Chul Han, o celular nos deu a ilusão de protagonismo. Não buscamos compreender, apenas afirmar. Não construímos comunidade, apenas reputação. Tornamo-nos uma sociedade sem escuta. Tudo é reação. Nada é reflexão.
Tomemos a nova Lei do Silêncio. Não resolve tudo. Mas define limites. Dá parâmetros. Estrutura a convivência entre bares, festas, moradores, profissionais da música — que, em uma cidade cada vez mais densa, vivem em colisão constante. É esse o papel da política.
O prefeito pode falar o que quiser. E todos podem reagir. Entretanto, transformar tudo em palco e todo palco em confronto esvazia o debate. O problema não é ele dizer que quer mais igrejas do que bares. Discordar disso também não é problema. O problema é ninguém perguntar como. Reagir com equilíbrio e seriedade é devolver à declaração as perguntas que ela merece.
Estamos diante de um prefeito polêmico, comunicativo, ambíguo. Isso exige mais cuidado da sociedade. Se cairmos na armadilha do vídeo curto, viramos “doutores do nada” — como diria Han, indivíduos perdidos em sociedades cruéis.
Enquanto isso, seguimos discutindo frases como se fossem planos. Seguimos exigindo governantes responsáveis, sem sermos cidadãos dispostos a pensar antes de atacar. Seguimos fazendo as perguntas erradas.
A política só amadurece quando abandonamos a pressa e cultivamos aquilo que Raul Seixas chamou de metamorfose ambulante: a capacidade de mudar, de duvidar da própria certeza. Porque, se a política é o lugar do coletivo, ela precisa de perguntas melhores. Sem elas, não teremos mais bar, nem mais igreja. Apenas mais ruído.
Afinal, a verdadeira política não cabe em um story de quinze segundos. A velha opinião de tudo, é mutável!
Rafael da Silva Campos é sócio do Bar da Lagoa.
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