OPINIÃO

Enfrentar obesidade combater mais de 10 tipos de cncer

Published

on


Carlos Aburad

 

A obesidade não é apenas um problema individual — é uma questão de saúde pública com impacto direto na incidência de diversas doenças crônicas. Entre elas, o câncer. Falar sobre o assunto com franqueza ainda incomoda, mas é necessário. O excesso de gordura corporal é fator de risco para pelo menos 13 tipos de câncer, além de agravar quadros de diabetes, doenças cardiovasculares e problemas respiratórios. Não é possível tratar a obesidade como se fosse apenas uma questão de “força de vontade”. Muitos pacientes carregam o peso da balança, se esforçam para emagrecer e mesmo assim não conseguem nem têm apoio concreto do poder público.

É nesse cenário que chama atenção, positivamente, a audiência pública marcada para esta sexta-feira, 27 de junho, na Câmara Municipal de Cuiabá para discutir o combate à obesidade. A iniciativa é da vereadora Michelly Alencar. Ela anunciou, recentemente, a destinação de R$ 1,2 milhão em emenda parlamentar para a aquisição do medicamento Mounjaro – usado no processo de emagrecimento. O recurso será usado na implementação de um programa inédito de combate à obesidade grave para usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, apoiou a iniciativa da vereadora e prometeu dobrar o valor, além de incentivar outros parlamentares da fazerem o mesmo com suas emendas para alcançar mais pacientes do sistema público de saúde.

A iniciativa rompe a inércia e tenta enfrentar o problema com mais do que discursos. É uma ação prática voltada para uma população que geralmente é esquecida pelas políticas públicas: a que vive com obesidade severa e não encontra resposta eficaz nos métodos tradicionais. É claro que o uso de medicamentos no tratamento da obesidade precisa ter acompanhamento profissional e mudanças de hábitos. Mas, pelo menos, é um começo. E, neste momento, qualquer passo concreto representa um avanço.

É preciso lembrar que a relação entre obesidade e câncer é direta. O excesso de gordura corporal provoca inflamação crônica e aumentos nos níveis de certos hormônios, que promovem o crescimento de células cancerígenas, aumentando as chances de desenvolvimento da doença, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). De acordo com INCA, estudos demonstram que atualmente o excesso de peso é um dos principais riscos para o desenvolvimento de câncer no Brasil. Na lista desses estudos estão incluídos os tumores de esôfago (adenocarcinoma), estômago (cárdia), pâncreas, vesícula biliar, fígado, intestino (cólon e reto), rins, mama (mulheres na pós-menopausa), ovário, endométrio, meningioma, tireoide e mieloma múltiplo e possivelmente associado aos de próstata (avançado), mama (homens) e linfoma difuso de grandes células B.

Entre os cânceres mais preocupantes ligados à alimentação e ao estilo de vida está o câncer colorretal, que tem aumentado em adultos jovens nas últimas décadas. Uma das causas prováveis, além da obesidade, é o consumo frequente de alimentos processados, especialmente carnes embutidas como salsichas, linguiças, presuntos e salames. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classificou esse tipo de produto como cancerígeno para humanos. O problema está na combinação de aditivos químicos, conservantes e métodos de processamento que aumentam a exposição a compostos potencialmente carcinogênicos.

É preciso resgatar o valor da alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados. Arroz, feijão, legumes, frutas, ovos e carnes frescas são alimentos da base que protegem e nutrem as pessoas. É preocupante ver que boa parte da população, por falta de condições financeiras, questões culturais, comodidade ou falta de tempo tem substituído essas opções por ultraprocessados rápidos, baratos e viciantes. Comer mal tem consequências para a saúde.

Há décadas são feitos alertas sobre os riscos da substituição da comida de verdade por produtos ultraprocessados, pobres em nutrientes e ricos em gordura, sal, açúcar e aditivos. Esse padrão alimentar é um dos principais combustíveis da obesidade e das doenças que dela derivam. E não adianta responsabilizar o indivíduo sem reconhecer o ambiente em que ele vive. Muitas vezes, é um ambiente que estimula o consumo e dificulta escolhas saudáveis.

A responsabilidade de mudar esse cenário é coletiva. As iniciativas da vereadora Michelly Alencar e do prefeito Abilio Brunini têm o mérito de reconhecer que pessoas com obesidade grave não podem ficar esperando por soluções que nunca chegam. Combater a obesidade é mais do que tratar um corpo. É proteger vidas de doenças evitáveis e dar dignidade a quem precisa de ajuda. O câncer, silencioso e implacável, muitas vezes começa com escolhas cotidianas que parecem pequenas. Tratar essas escolhas como parte de uma política de saúde é, antes de tudo, um dever.

Carlos Aburad é médico patologista





Fontee: Folhamax

Comentários
Continue Reading
Advertisement Enter ad code here

MATO GROSSO

Advertisement Enter ad code here

POLÍCIA

Advertisement Enter ad code here

CIDADES

Advertisement Enter ad code here

POLÍTICA

Advertisement Enter ad code here

SAÚDE

As mais lidas da semana