OPINIÃO
A naturalização do consumo alcoólico e seus efeitos na violência doméstica
A exposição cotidiana à propaganda de bebidas alcoólicas, veiculada em diferentes plataformas midiáticas, contribui para a construção de uma cultura que associa o consumo de álcool à felicidade, à celebração e ao alívio emocional. Tais publicidades, que frequentemente retratam jovens em ambientes festivos ou paradisíacos, reforçam a associação entre o consumo de álcool e momentos de alegria e descontração. Vivemos em uma sociedade que não apenas tolera, mas normaliza o uso abusivo dessa substância, seja para celebrar êxitos profissionais, marcar datas comemorativas, enfrentar situações de estresse ou mesmo superar momentos de tristeza e angústia.
A indústria cultural, com destaque para o gênero musical sertanejo, contribui significativamente para a romantização do consumo alcoólico, vinculando-o a narrativas de conquistas amorosas e superação pessoal. No entanto, o que se observa na prática é um fenômeno insidioso: o álcool vai permeando gradualmente a vida do indivíduo, podendo conduzi-lo à dependência química, com graves consequências destrutivas, não apenas à saúde física e mental, mas também nas relações familiares, finanças e dignidade.
Em minha atuação como delegada, especialmente no atendimento a casos de violência doméstica contra mulheres e crianças, constatei que uma quantidade considerável dos agressores apresentava relação disfuncional com o consumo de bebidas alcoólicas.
Embora o álcool não possa ser considerado o único fator desencadeante da violência, é inegável seu papel como elemento potencializador de condutas agressivas, elevando significativamente o risco de feminicídio. Essa relação é reconhecida institucionalmente. O Formulário Nacional de Risco (FONAR), instrumento elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para avaliação do grau de periculosidade em situações de violência doméstica, inclui, entre seus quesitos, justamente a investigação sobre o padrão de consumo alcoólico do agressor. A dependência química é reconhecida como um dos principais indicadores de perigo iminente à vida da vítima.
Diante dessa realidade, implementei na Delegacia da Mulher de Cáceres o Projeto Resgate, em parceria com os Alcoólicos Anônimos (AA). A iniciativa consistia no encaminhamento compulsório de autores de violência doméstica com histórico de alcoolismo para participação em sessões do grupo de apoio, como parte de uma estratégia de responsabilização, reabilitação e prevenção de reincidência.
Um episódio em particular permanece gravado em minha memória: ao final de um dia de trabalho, um homem solicitou falar comigo. Reconheci-o imediatamente como um dos participantes do programa. Ele veio expressar sua gratidão e despedir-se, pois havia obtido emprego em outra localidade e, mais importante, reconstruído os vínculos familiares. Sua família aguardava no veículo estacionado em frente à delegacia, pronta para iniciar uma nova etapa.
Esse caso emblemático ilustra de maneira inequívoca que o alcoolismo não apenas deteriora a saúde do indivíduo, mas também desestrutura famílias inteiras, sendo um dos principais combustíveis da violência doméstica. Para enfrentar esse problema de forma estrutural, torna-se imperiosa a adoção de medidas em duas frentes: a reeducação sociocultural, por meio de campanhas de conscientização e abordagem do tema nas instituições de ensino, e o fortalecimento de redes de apoio, como os grupos de Alcoólicos Anônimos, que se mostram instrumentos eficazes na prevenção da violência de gênero. A experiência demonstra que a recuperação é possível, transformar essa realidade exige um compromisso coletivo e cada história de superação reforça a importância de políticas públicas voltadas para esse fim.
Judá Maali Pinheiro Marcondes é delegada titular da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá
-
MATO GROSSO3 dias agoALMT tem agenda intensa de reuniões e audiências públicas
-
POLÍCIA6 dias agoPolícia Militar apreende mais de 200 tabletes de entorpecentes em Pontes e Lacerda
-
MATO GROSSO3 dias agoMega-Sena sorteia prêmio acumulado de R$ 150 milhões nesta quarta
-
MATO GROSSO4 dias agoArcebispo de Aparecida pede desarmamento e atenção à fome e à pobreza
-
Rondonópolis7 dias agoContribuintes com dívidas em 2026 também serão contemplados no Quita Fácil 2026
-
MATO GROSSO7 dias agoPrefeitura entrega tablets e amplia digitalização da fiscalização em Cuiabá
-
Rondonópolis6 dias agoPit stop leva conscientização contra câncer de mama e de colo do útero para semáforo
-
POLÍCIA7 dias agoPolícia Militar prende mulher que esfaqueou companheiro em Cuiabá


