CIDADES
Cabeleireira trans supera preconceito e abre salões em MT e em Londres: Podemos ocupar todos os lugares
Aos 16 anos, Adryelle Orleans tomou uma das decisões mais difíceis — e libertadoras — da sua vida: iniciar sua transição de gênero. Foi nesse momento que começou a encarar de frente o preconceito e a discriminação que ainda marcam o caminho de tantas mulheres trans. Mas ao contrário de muitas histórias interrompidas pela dor, a de Adryelle encontrou um ponto de virada: ela saiu da prostituição e se tornou empresária, dona de salões em Cuiabá e Londres, na Inglaterra, além de ter sua própria linha de produtos de beleza.
Annie Souza/Rdnews

Hoje, aos 31 anos, Adryelle é um exemplo de força, resiliência e empreendedorismo. Conhecida como a “Rainha do Liso”, ela se destacou por desenvolver uma técnica própria de alisamento capilar — o famoso “alisamento japonês” — que conquistou clientes dentro e fora do país. Ela relata que graças ao amor incondicional de sua mãe, teve a coragem de deixar para trás um passado de rejeição para transformar sua vida.
Aos 16 anos, Adryelle, que ainda era uma adolescente do gênero masculino, trabalhava como auxiliar em um tradicional salão de beleza que funciona no bairro Dom Aquino. Quando decidiu assumir sua transsexualidade e aparecer no trabalho usando roupas femininas, a reação da patroa foi a pior possível: Adryelle foi demitida.
“Eu tentei ir para vida, para rua, para o mundo. E foi horrível pra mim, porque eu sofri”
Sem emprego e machucada pelo preconceito, acabou indo tentar a vida na prostituição. No entanto, colocou na cabeça e no coração que não queria aquilo para ela e resolveu empreender.
“Eu trabalhava há quatro anos com ela. E foi muito difícil essa fase da minha vida, porque fiquei desestabilizada. Eu tentei ir para vida, para rua, para o mundo. E foi horrível pra mim, porque eu sofri. Eu acho que Deus não permitiu eu ficar naquela vida. Apanhei na rua, puxaram faca pra mim. E eu entendi que Deus não me queria naquele caminho”, contou ao
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Preocupada com o rumo que a vida de Adryelle estava tomando, a mãe entrou em ação. Saiu do emprego de zeladora em uma loja de materiais de construção e investiu o dinheiro do acerto no sonho da filha de ser cabeleireira.
“A minha mãe trabalhava limpando chão. Ela saiu desse emprego e falou pra mim: “não, essa vida da rua não é pra você. Você tem talento, você nasceu para brilhar. E você vai conquistar todos os seus sonhos trabalhando. Você vai colocar o seu peito de silicone, você vai usar o melhor cabelo. E tudo isso trabalhando”, completou.
Com o dinheiro do acerto trabalhista, Adryelle e a mãe abriram o espaço Sempre Bella. O início não foi nada fácil. Adryelle lembra que foi difícil conquistar as primeiras clientes. Para piorar a situação, a ex-patroa começou a difamá-la, tentando prejudicar seu negócio.
“Eu entrei em desespero e falei: meu Deus… Eu tenho o sonho de ser uma mulher trans, que não é fácil, porque a gente não tem mesmas oportunidades que as outras pessoas têm, infelizmente. Hoje a gente vive no século 21. Muitas tiveram que morrer para gente alcançar o que a gente está alcançando hoje. Hoje, a gente tem deputada, tem médica, advogada. Eu não tinha dinheiro pra plástica, nada. E sendo trans, ficava difícil as mulheres da sociedade sentarem na minha cadeira”, relata.
“Não é fácil, porque a gente não tem as mesmas oportunidades que as outras pessoas têm, infelizmente”
A virada de chave aconteceu em 2013, quando Adryelle teve a ideia de divulgar seu trabalho no Facebook. A postagem feita na página denominada Desapega Cuiabá repercutiu imediatamente e em poucas horas já tinha milhares de curtidas e comentários.
“Eu postei um trabalho meu, entre milhares de pessoas que postam trabalhos, acho que Deus colocou a mão falou assim: ela vai vencer. Então, surgiram meus bordões: “Rainha do Liso”, “Liso que nem Seda”. E vinham mulheres de todos os lugares querendo conhecer a técnica de alisamento japonês”, narra.
Annie Souza/Rdnews

Em 2018, Adryelle deixou o salão de Cuiabá sob responsabilidade da mãe e de colaboradores e foi para Inglaterra. Em Londres, abriu um espaço Sempre Bella e foi conquistando clientes, principalmente entre as brasileiras que residem no país europeu. Na Inglaterra, Adryelle se casou com um italiano, que a ajudou a viabilizar sua linha exclusiva de produtos de beleza, a Santi Cosméticos.
“Nós podemos ocupar todos os lugares. Eu sou uma mulher trans, preta, da periferia de Cuiabá, que empreendeu em Londres”
“Hoje em dia, eu tenho sete anos de Reino Unido. E tem um ano que eu consegui abrir o meu espaço lá fora. Consegui realizar o meu sonho de ter o salão que eu queria. E devido a esse sucesso todo com o meu alisamento, pude lançar a minha própria marca de produtos, que ofereço aos profissionais da beleza. São sonhos que ralei para conquistar. No Reino Unido, casei com um homem maravilhoso, italiano, que me deu a possibilidade de me regularizar e poder abrir o meu salão na Inglaterra, que é uma filial, um bebê do salão do Brasil. Tudo é muito gratificante. Eu sei de onde vim e onde cheguei”, diz Adryelle, que veio passar três meses em Cuiabá e já retorna para Europa.
Na condição de mulher trans, Adryelle se diz realizada com o legado que está construindo. Segundo ela, o respeito conquistado é mais importante que a realização financeira.
“Dinheiro a gente ganha e a gente perde. O mais gratificante para mim é esse reconhecimento. Sendo uma mulher trans, onde eu vou na minha cidade, eu sou respeitada. Estou mostrando que nós [trans] somos sim capazes, que nós podemos empreender. Hoje, temos a Erika Hilton, nossa deputada federal, uma mulher trans inteligentíssima, de uma dicção maravilhosa. Nós podemos ocupar todos os lugares. Eu sou uma mulher trans, preta, da periferia de Cuiabá, que empreendeu em Londres, dona da sua própria marca de produto. E o mais importante: dona dos seus próprios sonhos”, enfatiza.
Adrielly também considera que sua trajetória pode inspirar outras mulheres trans a buscar vencer na vida. Neste sentido, quer mostrar que a prostituição não é o único caminho.
“Infelizmente, as meninas acabam na esquina porque, às vezes, a própria sociedade acaba nos jogando para escanteio, não dá oportunidade, não inclui. Então eu não julgo as meninas, mas digo que tudo é possível, sim. É possível e basta a gente acreditar em nós mesmas, primeiramente. Eu acho que a minha história não serve só pra inspirar a vida de mulheres trans, mas sim de toda sociedade. O Brasil é o país que mais mata mulheres trans no mundo. Enquanto estamos conversando aqui, uma de nós pode estar morrendo. Então, essa luta ainda é uma luta grande. E eu me sinto sim, hoje em dia, vitoriosa”, conclui.
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