OPINIÃO
A viola de cocho e a política
Conheci um construtor de viola de cocho que atendia pelo nome de “Jhão-Jhão”. Era mal-humorado, com pouca escolaridade, mas carregava uma imensa sabedoria popular. Detestava todo tipo de político.
Dizia sempre que político tem características inconfundíveis: vive sorrindo, apertando mãos, abraçando pessoas, falando sem parar… Mente com excelência e costuma pentear o cabelo para trás — talvez para reforçar aquela cara “lambida” que transmite cinismo com a maior naturalidade.
Escultor de ximbuva e cantor de cururu, o senhor Jhão-Jhão gostava de filosofar sobre os bons políticos — aqueles raros, segundo ele — e dizia:
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“O bom político vive angustiado, porque o sossego não o satisfaz. Ele sabe que tudo o que já fez é pouco, e que ainda há muito por fazer.”
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“Tem a consciência de que suas conquistas são sempre incompletas, porque as necessidades do povo não têm fim. Sua missão nunca se encerra.”
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“Entende que toda promessa feita ecoa no mundo espiritual, e sem perceber, enxerga com os olhos da alma do povo.”
Jhão-Jhão tinha sua própria técnica para esculpir a viola de cocho. Esse instrumento típico da nossa cultura é simples comparado aos aparelhos eletrônicos de hoje, mas carrega a alma das festas de cururu e siriri — celebrações que iluminavam os terreiros das fazendas ao redor da velha Cuiabá.
A viola de cocho tem esse nome por causa do formato: nasce de um tronco inteiriço da madeira de ximbuva, que vai sendo talhado com facão e formão até ganhar a forma da viola. É escavada em forma de cocho — onde está sua caixa de ressonância. Sobre ela, é fixado um tampo de piúva branca. O cavalete é de cedrinho. A escala, o rastilho e as cravelhas completam a obra. As cordas, que antes eram feitas de tripa de macaco, hoje são substituídas por linha de pesca — para preservar a espécie.
Certo dia, presenciei um encontro entre um político e o escultor/cururueiro Jhão-Jhão. O político, curioso, avistou um enorme tronco de ximbuva no rancho e perguntou:
— O que você vai fazer com esse tronco tão pesado?
— Estou idealizando e planejando. Antes de começar, preciso preparar meu espírito. Trabalho com madeira bruta, mas dependo da leveza da alma. É nela que encontro inspiração. Primeiro, visualizo a viola em minha mente. Depois, o facão faz o resto.
O político, surpreso, comentou:
— Eu não sabia que um escultor planejava tanto assim. Achei que fosse coisa do “fazejamento” direto…
Jhão-Jhão então disse:
— Idealizar é parte da tarefa. Mas veja: construir algo como uma viola é diferente de fazer um plano de governo com cara de espelho quebrado. Político escreve promessas sem inspiração. Depois de eleito, amassa tudo e joga fora como se fosse um papel qualquer. Não há sentimento verdadeiro no que fazem.
— Já eu, que transformo um tronco de meia tonelada numa viola de cocho, não posso mudar de ideia no meio do caminho. Preciso respeitar a madeira, o tempo e minha criação. Já o político, muda de opinião no meio do mandato como quem amassa um bloco de papel — de poucas gramas — e joga no lixo, sem o menor constrangimento.
Mas o essencial — dizia Jhão-Jhão — é que, por mais difícil que seja a sua tarefa, ela deve nascer da verdade. Quando seu trabalho é honesto, ele alimenta o corpo e acalma a alma. Quando não é, o alimento vira peso, e a alma sofre.
Wilson Carlos Fuáh – É Especialista em Recursos Humanos e pesquisador das Relações Sociais e Políticas, Graduado em Ciências Econômicas. É pensador e observador do comportamento humano. Escreve sobre as emoções, o cotidiano e a busca por sentido em meio aos desafios da vida contemporânea
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