OPINIÃO

O Conclave e as pasquinadas

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Quem acredita que a prática de difamar adversários, espalhar boatos ou fabricar mentiras seja um fenômeno exclusivo da era digital talvez precise revisitar a história com mais atenção. Muito antes da existência das redes sociais, da comunicação instantânea e da inteligência artificial, a manipulação da informação já era utilizada como instrumento político — inclusive nos bastidores da Igreja.

Um exemplo notório ocorreu no conclave papal de 1522, cenário marcado por tensões políticas, interesses diversos e disputas internas. Na ocasião, Giulio de Médici — que viria a ser eleito papa Clemente VII — recorreu a uma estratégia inusitada: contratou Pietro Aretino, escritor satírico conhecido por sua linguagem mordaz e por sua habilidade em intervir no debate público por meio de versos críticos. Aretino divulgava poemas com acusações ferinas e ironias contundentes direcionadas aos adversários de Médici, colando-os na estátua de Pasquino, em Roma — local tradicional de crítica anônima e sátira política. Esses textos ficaram conhecidos como pasquinadas, e rapidamente ganharam notoriedade pela ousadia e impacto nas disputas pelo poder.

Pietro Aretino foi uma figura controversa e multifacetada, que desafiou as normas sociais, morais e literárias de sua época. Autodenominado “o flagelo dos príncipes”, ele é estudado por historiadores como um dos primeiros autores modernos a utilizar a sátira como forma de influência política estruturada. Suas pasquinadas, fixadas na estátua de Pasquino, deram origem ao termo que até hoje designa textos difamatórios de caráter anônimo e panfletário.

Embora a manobra não tenha surtido efeito imediato — o eleito naquele ano foi Adriano VI — a ação de Médici marca um precedente histórico no uso deliberado da desinformação como ferramenta de influência em processos eleitorais, mesmo em ambientes sacralizados como o Vaticano. No ano seguinte, Médici seria escolhido papa, demonstrando que a propaganda negativa havia cumprido, ainda que indiretamente, parte de seu papel.

Mais de cinco séculos depois, em 2025, a Igreja Católica se prepara para um novo conclave, agora em um cenário global profundamente alterado. O mundo atual é hiperconectado, digitalmente saturado e geopoliticamente instável. Nesse contexto, a eleição do novo pontífice ocorre sob o peso de pressões complexas — tanto internas quanto externas — e sob o risco constante da manipulação informacional.

Entre os dias 6 e 11 de maio, 135 cardeais estarão reunidos na Capela Sistina. Como medida preventiva, permanecerão completamente isolados, sem qualquer acesso à internet ou dispositivos eletrônicos. A iniciativa busca evitar interferências externas e conter o impacto de campanhas difamatórias que, ao longo das últimas décadas, vêm se intensificando por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens, vídeos forjados e estratégias de desinformação altamente sofisticadas.

A mudança de escala é evidente. Se no passado os boatos circulavam oralmente ou em papéis afixados em estátuas, hoje eles viajam por canais criptografados, viralizam em minutos e são produzidos com auxílio de tecnologias como inteligência artificial e bots automatizados. A fabricação de narrativas deixou de ser artesanal para se tornar algoritmizada, operando com precisão cirúrgica sobre a opinião pública e sobre os corredores do poder eclesiástico.

Essa realidade já havia sido reconhecida pelo próprio Papa Francisco, que, em sua mensagem para o 58º Dia Mundial das Comunicações Sociais, alertou para os riscos da inteligência artificial como instrumento de manipulação política e polarização ideológica. Em suas palavras: “A inteligência artificial pode contribuir positivamente na circulação da informação, mas também corre o risco de alimentar a desinformação e a manipulação da opinião pública”.

Diante desse cenário, qualquer informação que se apresente como “reveladora”, qualquer suposto dossiê, qualquer favoritismo instantâneo deve ser recebido com cautela. Uma versão — digital e refinada — das velhas pasquinadas. Afinal, a tecnologia muda, mas as estratégias simbólicas do poder, muitas vezes, permanecem as mesmas.

Se Giulio de Médici vivesse hoje, teria trocado os pergaminhos por uma conta verificada. E Pietro Aretino, sem dúvida, seria um sucesso nas plataformas de vídeo — monetizando cada verso, cada intriga, cada escândalo cuidadosamente elaborados.

Fabricio Carvalho é Maestro e Membro da Academia Mato-Grossense de Letras – @maestrofabriciocarvalho





Fontee: Folhamax

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