OPINIÃO
O tempo está passando
Em dezembro de 2024 o governo brasileiro sancionou a lei 15.042 que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). O texto aprovado pelo Congresso Nacional após vários anos de discussão dá ao Brasil a possibilidade de participar efetivamente do maior negócio ambiental, e financeiro, do mundo, afinal o crédito de carbono é um enorme mercado a ser explorado, e ainda que tem o incrível potencial de unir diferentes vertentes produtivas e consumidoras.
Em 2021, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) trazendo as perspectivas sobre as mudanças climáticas e os impactos da humanidade sobre o clima. Os dados chamam a atenção para dois grandes problemas: o aquecimento global e a segurança alimentar.
As alterações no clima, com o aumento da probabilidade de grandes secas e de enchentes devastadoras, expõem a vulnerabilidade da principal atividade econômica primária do mundo, a agropecuária. O chamado escritório a céu aberto, responsável pela produção de alimentos para a humanidade, depende essencialmente das condições da natureza para produzir e culpar o campo pelas mudanças é, no mínimo, irresponsável.
Ao mesmo tempo, o Brasil tem avançado muito nas áreas de pesquisa e investimentos tecnológicos para o campo e isso tem possibilitado aumentar a produtividade sem a necessidade de abrir novas áreas. Pelo contrário, recuperando áreas degradadas, intensificando a produção e integrando as atividades, e mais, os sistemas produtivos capazes de neutralizar a própria emissão de carbono, ou até mesmo de compensar de outros sistemas e atividades, estão cada vez mais presentes no agronegócio brasileiro.
A carne carbono neutro, por exemplo, é um projeto da Embrapa que já está sendo adotado por produtores, indústrias e redes de varejo para levar ao consumidor uma proteína ainda mais sustentável. Outro grande exemplo é o plantio direto sobre a palha, um modelo que revolucionou a produção de grãos no Brasil, que além de emitir menos, também sequestra carbono do solo.
Ainda, o setor de biocombustíveis, que é uma fonte limpa de energia, já consegue gerar créditos para compensar a emissão dos combustíveis fósseis. Neste segmento já foram criadas ferramentas para identificar e certificar os produtores e mensurar esse crédito para que seja comercializado. Podemos citar também a suinocultura, que vem ampliando a utilização de biodigestor para transformar os gases emitidos pelos animais em energia elétrica.
Não faltam exemplos, pesquisas e iniciativas, mas temos que avançar na construção de uma agenda positiva. Trazer uma metodologia desenvolvida para os trópicos. Que seja aplicável, reconhecida e baseada na ciência para mensurar este mercado, e que, ao contrário do modelo atual, reconheça e valorize a geração de crédito.
Mas o tempo está passando, e precisamos urgentemente regulamentar a lei 15.042.
Como o maior produtor de alimentos, fibras e energia do mundo temos que estar prontos e em condições para capitalizar toda essa produção e preservação, sendo o maior gerador e vendedor de crédito de carbono do planeta terra.
Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.
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