POLÍTICA
Politécnica da USP homenageia quatro estudantes mortos na ditadura
O projeto Diplomação da Resistência foi uma das formas eleitas pela USP para reconhecer a coragem e o protagonismo de alunos e funcionários técnico-administrativos e do corpo docente que se ergueram contra as arbitrariedades cometidas pelos agentes do Estado no período. Ao todo, estão contemplados 31 estudantes na ação, promovida com a participação da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento.
A Comissão Nacional da Verdade, que produziu um dos documentos primordiais sobre a ditadura de 1964, registra que, das 434 pessoas mortas ou desaparecidas durante o período, 47 pertenciam à comunidade da USP. O reitor Luís Antônio da Gama e Silva, da Faculdade de Direito, foi quem redigiu e anunciou o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que determinou o fechamento do Congresso Nacional e facilitou violações de direitos.
Homenageados
Um dos estudantes da Poli homenageados com a diplomação foi Lauriberto José Reyes, assassinado pelos agentes de repressão aos 26 anos de idade. A versão oficial, disseminada por quem estava no poder e que foi, inclusive, replicada em uma nota da Folha de S. Paulo, é a de que Lauri, como era chamado por amigos, familiares e colegas, e um de seus companheiros do Movimento de Libertação Popular (Molipo), Alexander José Ibsen Voerões, trocaram tiros com as forças de segurança e morreram em decorrência disso, no bairro do Tatuapé, zona leste da capital paulista. Foi imputada a ambos a responsabilidade pelo disparo que matou o funcionário público aposentado Napoleão Felipe Biscaldi, que morava na rua apontada como o local do tiroteio.
Após cinco anos da morte de Lauri, sua família descobriu, com o apoio da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, que, naquele dia, Lauri foi perseguido, como outros militantes da esquerda, pelo Esquadrão da Morte. Os militares fizeram ronda nas quadras a bordo de um Opala, munidos de uma metralhadora.
Testemunhas confirmaram que foram os militares que executaram o aposentado e Lauri, que caminhava ferido e jamais disparou nenhum tiro. Um dos moradores ouvidos também informou ter visto uma vítima dentro do carro e que os militares disseram que havia outra pessoa morta em outro quarteirão ).
No princípio da cerimônia na Poli, a organização exibiu um vídeo em que familiares das quatro vítimas contam um pouco sobre elas.
Maria da Graça Mendes de Abreu, irmã de Manoel José Nunes Mendes de Abreu, falou sobre as circunstâncias em que ele morreu, mencionando que foi executado na ditadura. O jovem chegou ainda criança ao Brasil. Sua família havia trocado Portugal, sua terra natal, justamente por conta da ditadura de António de Oliveira Salazar.
Como Lauri, o jovem português entrou em um dos grupos que se organizaram para tentar derrubar os militares. Abreu integrou a Ação Libertadora Nacional (ALN) e já vivia na clandestinidade quando foi morto, em 23 de setembro de 1971. Ele, Antônio Sérgio de Mattos, Ana Maria Nacinovic Corrêa e Eduardo Antônio da Fonseca, todos militantes da ALN, caíram em uma emboscada na rua João Moura, no bairro Sumarezinho.
Conforme recupera o Memorial da Resistência de São Paulo, os agentes da repressão estacionaram na rua um jipe do Exército aparentemente com problemas. Ao lado, um caminhão baú da Folha de S. Paulo escondia agentes do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), que portavam metralhadoras e assassinaram três deles, sendo Abreu um deles.
A única sobrevivente foi Ana Maria, que na hora conseguiu escapar sem ser presa, mas foi morta no ano seguinte. A versão que omitiu a verdade qualificou os três militantes como assaltantes que tentaram levar o jipe.
Perguntada sobre a parte do irmão de que mais sente saudade, Maria da Graça diz que são “as conversas, os risos”. Segundo ela, toda a família sofreu demais com sua perda, mas quem mais definhou foi seu pai.
“Para minha mãe foi muito difícil, muito. Mas é que meu pai reagiu de maneira mais frágil. Meu pai se fragilizou muito e foi morrendo aos poucos”, afirma.
Além de Abreu e Lauri, foram homenageados Olavo Hanssen e Luiz Fogaça Balboni. Hanssen, conhecido como Totó, filiou-se ao Partido Operário Revolucionário Trotskista (Port) e foi morto em 1970. Durante a ditadura, foi perseguido em várias oportunidades, em virtude de seu posicionamento político-ideológico. Balboni foi assassinado aos 24 anos, somente um ano após iniciar sua militância, também pela ALN.
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