OPINIÃO

Gabrieli, presente!

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No domingo, dia 25/05/2025, foi vítima de feminicídio em Cuiabá Gabrieli Daniel de Moraes, aos 31 anos. O seu companheiro, um policial militar, confessou ter praticado o delito.  

O crime foi praticado diante dos dois filhos do casal: de 3 e 5 anos. Moradores da região do Bairro Praeirinho, onde aconteceu o feminicídio, disseram que ouviram apenas disparos que confundiram com fogos de artifício. Após assassinar a sua companheira, o homem entregou as duas crianças para a avó paterna. Em depoimento prestado à polícia civil, o feminicida caracterizou como “tragédia familiar”, e que estaria de “cabeça quente”. Afirmou, ademais, que: “o que resta agora é se arrepender”. 

Os sites de notícias publicaram algumas fotos do casal, e a que mais chama a atenção é uma do dia do casamento, onde ele está ajoelhado segurando uma das mãos da vítima. Ela se encontra sorridente realizando o sonho romântico, vestida de noiva, e com um buque de rosas brancas em uma das mãos. Atrás do casal é possível vislumbrar uma bela mesa posta com o bolo de casamento, com rosas e doces adornando o ambiente. Todavia, o sonho dela não era o mesmo dele.  

Ele, ao que tudo indica, sonhou com o inalcançável, ou seja, com alguém que nunca iria satisfazer as suas vontades. Idolatrou um ideal de mulher, e quando o seu “brinquedo” ou “objeto” não agradou aos seus desejos, não lhe restou outra alternativa: a matar. A retirou do mundo material ao seu bel prazer, como algo que se descarta. Tirou-lhe do convívio dos seus familiares, amigos, amigas, e filhos na tenra infância. Determinou que os seus filhos crescessem sem a figura da mãe.  

Os familiares da vítima, inconformados, disseram que ao se depararem com o corpo dela se assustaram. Segundo eles e elas, Gabrieli se encontrava desfigurada, com o maxilar quebrado, a cabeça afundada, e o cabelo todo “picotado”.  

O feminicídio é um crime de ódio pela violência de gênero, praticado em razão da misoginia que ronda a sociedade. E não há outra justificativa plausível. A cozinha da casa onde Gabrieli foi morta estava “lavada” de sangue. A mesma cozinha que serviu para reuniões familiares, para o agrado com o feitio de comida para os entes queridos, infelizmente foi palco da morte daquela que nela esteve diariamente. 

O sofrimento familiar foi externado pela mãe e a irmã da vítima, que afirmaram da dificuldade em recebê-la dentro do caixão, no Estado do Pará, onde vivem. Palavras da genitora demonstram a dor: “A minha filha chegou deformada, não deu nem para reconhecer. Ela era menina boa, cuidava dos filhos, estudava”. 

Na verdade, Gabrieli tinha sonhos! Cursava o último semestre de Enfermagem, e estava, na atualidade, se preparando para a formatura em agosto do corrente ano. A vítima escolheu como profissão a assistência direta a pessoas, com a promoção da saúde, cuidados, ministrar medicamentos, realização de curativos, monitoramento dos sinais vitais e a educação. Aliás, tudo que ela não teve no casamento. A Enfermagem é mola mestra para o bom funcionamento do sistema de saúde, contribuindo para a promoção, prevenção, recuperação e reabilitação dos pacientes.         

 Dela, todavia, foi retirado o direito de continuar a sua jornada terrena. Gabrieli visivelmente se encontrava no ciclo da violência doméstica e familiar, não tendo conseguido sair a contento e a tempo. E de quantas Gabrielis ainda teremos notícias? 

Clarisse Lispector, sempre atual, deixou recado importante para as mulheres: “A prova de que estou recuperando a saúde mental, é que estou cada minuto mais permissiva: eu me permito mais liberdade e mais experiências. E aceito o acaso. Anseio pelo que ainda não experimentei. Maior espaço psíquico. Estou felizmente mais doida.” 

Gabrieli, presente!   

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual e mestra em Sociologia pela UFMT, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT -, membra da Academia Mato-Grossense de Direito – AMD – Cadeira nº 29. 





Fontee: Folhamax

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