OPINIÃO
AA vital na terapia de dependentes do lcool
Bob — sim, como Dr. Bob, o cofundador dos Alcoólicos Anônimos. Um xará. Seria apenas coincidência? Ou um símbolo, um eco das histórias que se repetem nos consultórios de psiquiatria? Eram oito horas da noite quando ele entrou. Sentou-se do outro lado da mesa, envergonhado, olhos marejados. A postura curvada, o silêncio pesado, a fala entrecortada: tudo nele parecia clamar por socorro. Em sua expressão, via-se o semblante de quem carrega o peso invisível das correntes do álcool.
A partir da anamnese e do exame do estado mental, revela-se o quadro: uma grave dependência etílica, marcada por intenso sofrimento psíquico, prejuízos laborais, familiares e sociais. Inicia-se o tratamento com medicações, propõe-se psicoterapia. Mas falta algo – não há grupo de apoio, não há laço, não há suporte coletivo.
Alguns dias depois, o paciente retorna. Nenhuma melhora significativa. Falta-lhe apoio familiar, e os remédios sequer são mencionados. Na escuta atenta, torna-se evidente: o que está ausente é o afeto, o abraço, o sentimento de pertencimento, a comunhão de experiências, a conversa desarmada, o espaço seguro para simplesmente ser. Então, ele conta que estivera sóbrio por seis anos, graças à participação regular em um grupo de Alcoólicos Anônimos (AA) numa cidade anterior. Havia abandonado as reuniões há quase noventa dias e, sem elas, deixou de lado também a estrutura que sustentava sua sobriedade.
Quantos “Bobs” ainda cruzarão as portas dos consultórios de psiquiatria? A frustração diante da ineficácia parcial das intervenções convencionais se repete. E ela nos leva, inevitavelmente, a refletir — ou reafirmar — o valor imensurável do grupo terapêutico como ferramenta complementar no tratamento da dependência.
Os Alcoólicos Anônimos não substituem o acompanhamento médico ou psicoterápico, mas representam um poderoso suporte contínuo à desintoxicação e à manutenção da sobriedade. O vínculo com outros dependentes que compartilham o cotidiano da abstinência, com empatia e sem julgamentos, frequentemente se mostra mais eficaz do que qualquer intervenção isolada.
A força da irmandade reside na horizontalidade: todos são iguais, todos compreendem a dor do outro porque a conhecem intimamente. Essa conexão verdadeira, baseada na escuta, no afeto e na esperança é, muitas vezes, o diferencial entre recaída e recomeço.
O psiquiatra que compreende o papel de Alcoólicos Anônimos e o reconhece como aliado terapêutico amplia significativamente as chances de sucesso no tratamento. Mais do que remédios, diagnósticos e protocolos, o que verdadeiramente move a transformação é o encontro humano. No âmago da reabilitação, o que resta — e o que salva — é o amor.
Alberi Campos Jr é médico psiquiatra, e amigo do AA
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