OPINIÃO
CPI DAS BETS: Quando o vício vira conteúdo, quem cuida do sofrimento?
A comissão parlamentar de inquérito (CPI) das Bets do Senado Federal, a CPI das Bets, foi instaurada com o objetivo de investigar a crescente influência dos jogos virtuais de apostas online no orçamento das famílias brasileiras entre outros possíveis danos à sociedade.
No entanto, a sessão da CPI das Bets realizada na última quarta-feira (14), da qual a milionária influenciadora digital Virgínia Fonseca participou, acabou virando conteúdo de internet, nos famosos memes — e o sofrimento psíquico real por trás desse fenômeno que é o vício em jogos de azar acabou sendo deixado de lado.
Esse episódio escancara como o Brasil ainda lida com questões de saúde mental: com negligência, ironia, desvio de foco e indiferença.
Quem acompanhou a internet e as redes sociais nesta semana viu Virgínia afirmar: “aposta quem quer” e aconselhar que “quem tem algum vício não deve jogar” — como se bastasse simplesmente escolher não jogar.
O vício em apostas tem nome: ludopatia. É uma doença reconhecida pela medicina. Quem sofre com esse transtorno perde o controle dos impulsos. A sensação de vitória se torna viciante e a obsessão por recuperar o que foi perdido se instala.
A ludopatia afeta o comportamento, as emoções e toda a estrutura da vida da pessoa. Os sintomas incluem ansiedade, depressão, culpa, impulsividade, insônia e, em casos graves, tentativas de suicídio.
Muitos só procuram ajuda depois de perder dinheiro, relacionamentos, autoestima — e a própria saúde mental. Em casos extremos, a vida!
Estudos indicam que entre 1% e 3% da população mundial, ou seja, entre 80 milhões e 240 milhões de pessoas no mundo, apresenta algum grau de problema com jogos de azar. E o mais preocupante: muitos nem sabem que o que estão vivendo tem nome, diagnóstico e tem tratamento.
Ludopatia é uma doença tratável. Precisamos de mais informação, mais escuta e menos julgamento para os viciados em jogos.
Se você está sofrendo ou conhece alguém que sofre com o vício em jogos de azar, procure ajuda especializada. Um médico psiquiatra pode avaliar a gravidade do problema e prescrever medicamentos, se necessário. Há também grupos de apoio e terapia individual com psicólogos, que ajudam a compreender as causas do vício e desenvolver estratégias para enfrentá-lo.
Cuidar da saúde mental é um ato de coragem. Você não está sozinho.
Amanda Costa é médica psiquiatra em Cuiabá.
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