OPINIÃO

A Escolha do Conclave: Sandálias ou Trono?

Published

on


Christiany Fonseca

 

No dia 7 de maio, os olhos do mundo se voltarão para a Capela Sistina, onde 134 cardeais eleitores darão início ao Conclave que definirá o próximo Papa. A escolha carrega um peso imenso. Não apenas para os mais de 1,4 bilhões de católicos espalhados pelo mundo, mas para todas as pessoas que compreendem o impacto que a Igreja Católica, com sua autoridade moral e histórica, ainda exerce sobre a sociedade global. Mas antes de falar sobre o futuro, é necessário fazer uma pergunta que nos provoca profundamente: nós sabemos, de fato, quem foi Jesus de Nazaré? Aquele a quem o papado e a humanidade devem ter como exemplo? 

Jesus não foi um líder moldado pelos salões do poder. Não buscou alianças com a elite do seu tempo. Ele andava entre os pobres, sentava à mesa com cobradores de impostos, falava com mulheres excluídas, curava leprosos considerados impuros e, sobretudo, enfrentava de frente a hipocrisia religiosa dos fariseus e doutores da lei. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!”, exclamava, denunciando a injustiça em nome da fé. Foi Jesus quem desafiou os vendilhões no Templo, derrubando suas bancas e dizendo: “Transformaram a casa de meu Pai em covil de ladrões!”. E foi ele quem disse com clareza perturbadora: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus” (Mateus 19,24). 

Ele não pregava o conformismo. Pregava a transformação. Lavou os pés dos discípulos como sinal de humildade radical. Salvou a adúltera do apedrejamento dizendo: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. Construiu seu ministério entre os marginalizados e fez disso a sua revolução. Jesus de Nazaré foi, antes de ser reconhecido como divindade, um homem profundamente comprometido com os últimos, com os esquecidos, com os injustiçados. 

Curiosamente, esse mesmo Jesus é respeitado por diversas tradições religiosas. O judaísmo o reconhece como um rabino carismático, embora não como o Messias prometido. O islamismo o venera como um dos maiores profetas. E mesmo entre pessoas sem fé religiosa, há um reconhecimento claro de que Jesus foi uma das figuras mais transformadoras da história humana. 

É dentro desse espírito que se almeja os passos do papado e que compreende o legado do Papa Francisco. Um papa que não agradou a todos. Francisco enfrentou duras críticas de setores conservadores dentro da própria Igreja. Ainda assim, escolheu caminhar como Cristo: em direção aos invisibilizados. “A Igreja é para todos, todos, todos”, afirmou. Foi ele quem declarou, diante da pergunta sobre os homossexuais: “Se uma pessoa é gay e busca a Deus, quem sou eu para julgar?”. Foi ele quem abriu as portas do Vaticano para receber pessoas trans, algo inédito na história da Igreja. 

Francisco também reconheceu que o planejamento familiar faz parte do cuidado responsável. Disse que não é necessário “ter filhos como coelhos”, referindo-se ao sofrimento de muitas mulheres pobres, ignoradas por uma moral rígida e distante da realidade. Ampliou o colégio cardinalício, nomeando membros de países da Ásia, da África e da América Latina, dando novos rostos ao poder da Igreja. Levou a sério o grito dos pobres e fez ecoar sua defesa pela paz em meio a um mundo dilacerado por guerras. 

Francisco, assim como Jesus, também rompeu barreiras religiosas. Foi respeitado não apenas dentro da Igreja, mas também fora dela. Diálogos com o judaísmo, o islamismo e religiões de matriz africana marcaram seu pontificado. Promoveu encontros inter-religiosos e sempre reforçou que a fé não pode ser usada como arma de exclusão. Entre pessoas agnósticas ou ateias, conquistou admiração por sua coerência ética, humildade e coragem de enfrentar as estruturas de poder, inclusive as da própria Igreja. Seu compromisso com a dignidade humana ultrapassou credos, tornando-se um ponto de convergência entre diferentes tradições e visões de mundo. 

É verdade que, dos 134 cardeais que votarão no Conclave, 108 foram nomeados por Francisco. Mas sua estratégia foi universal, entre esses eleitores há conservadores, moderados e progressistas. A fumaça branca que se erguerá em breve ainda é uma incógnita, poderá anunciar a continuidade da primavera franciscana ou sinalizar um retorno a uma Igreja mais fechada, mais dogmática, menos próxima do povo. 

O contexto internacional pesa. O conservadorismo avança em vários países. Há pressão, inclusive de setores políticos para que o novo Papa represente valores mais tradicionais. Não seria a primeira vez que a Igreja cederia ao poder. 

Por isso, a pergunta é urgente, de qual Papa o mundo precisa hoje? De um líder que olhe para trás, buscando restaurar uma tradição que exclui ou de um pastor que, como Jesus e como Francisco, tenha coragem de caminhar com os pobres, acolher os rejeitados e denunciar a idolatria do poder? 

Não se trata apenas de uma escolha dentro dos muros do Vaticano. Trata-se do tipo de Igreja que será oferecida ao mundo: uma Igreja que lava os pés ou que se ajoelha apenas diante dos tronos? 

Francisco acendeu uma luz. Que ela não se apague. 

Christiany Fonseca é Professora do IFMT e Doutora em Sociologia  





Fontee: Folhamax

Comentários
Continue Reading
Advertisement Enter ad code here

MATO GROSSO

Advertisement Enter ad code here

POLÍCIA

Advertisement Enter ad code here

CIDADES

Advertisement Enter ad code here

POLÍTICA

Advertisement Enter ad code here

SAÚDE

As mais lidas da semana