SAÚDE
Além do Ozempic: novos hormônios são testados contra a obesidade
“A categoria de remédios que foi aberta com o Ozempic está sendo explorada apenas em sua superfície. Estamos vendo pacientes conseguindo pela primeira vez viver com saúde, reverter diabetes, diminuir a apneia do sono, reduzir de peso e, quando passarmos a combinar e popularizar essas drogas, viveremos uma revolução no tratamento da obesidade”, garante o endocrinologista Bruno Geloneze, do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (OCRC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A busca por tratamentos mais eficientes vai além dos medicamentos agonistas do GLP-1, categoria do Ozempic e do Wegovy. Novos hormônios e substâncias estão sendo analisados, com a esperança de alcançar resultados mais duradouros.
“As possibilidades que se aproximam são incríveis e estamos cada vez mais próximos de pensar em uma solução medicamentosa definitiva, do ponto de vista clínico, para a obesidade”, afirma o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri.
Explorando hormônios intestinais para além do Ozempic
Uma das áreas promissoras no combate à obesidade está no estudo de hormônios produzidos pelo sistema digestivo para sintetizá-los artificialmente de forma semelhante ao que o Ozempic faz com o GLP-1.
Esses hormônios, conhecidos como GUT, são um conjunto de mais de uma dezena de substâncias, mas há alguns que estão em maior destaque. e que é considerado por especialistas como um dos motivos do sucesso do emagrecimento intenso que o remédio proporciona.
O GIP também é produzido no intestino e ajuda a regular a liberação de insulina. Quando estimulado, ele envia sinais ao cérebro promovendo a saciedade, além de melhorar a lipogênese, o que pode ser vantajoso para o controle do peso.
O único princípio ativo até agora a explorar este hormônio foi a tirzepatida e, durante os ensaios clínicos, ao ser aliado com mudanças na dieta, o remédio levou voluntários ao emagrecimento de até 20% do peso corporal.
O avanço da retatrutida
Os novos fármacos, porém, não se restringem apenas a esses hormônios. , que combina os efeitos de três hormônios: GLP-1, GIP e glucagon. A junção dos hormônios tem se mostrado mais eficaz do que a ação isolada de cada um deles, permitindo um controle mais abrangente da obesidade e seus impactos metabólicos.
O glucagon também é responsável por aumentar a saciedade, o metabolismo de gordura e o gasto calórico, potencializando a ação dos dois outros hormônios. O glucagon ainda estimula a secreção de mais hormônios que possuem o potencial de queimar gordura como o cortisol, a epinefrina e o hormônio do crescimento.
Em um estudo publicado no , 338 pacientes obesos receberam doses semanais de retatrutida durante 11 meses. Os resultados mostraram uma redução média de 23 quilos, com 25% dos participantes atingindo uma perda de até 30%. Esses números ressaltam o potencial da retatrutida como uma terapia efetiva para o tratamento de doenças associadas ao excesso de peso.
Outro remédio que está sendo desenvolvido com base em uma combinação de glucagon e GLP-1, a survodutida está em estudos clínicos para o tratamento da obesidade e da diabetes tipo 2. Em resultados divulgados no final de 2024, a substância levou a uma expressiva redução da circunferência da cintura. A gordura abdominal é justamente uma das mais perigosas para aumentar o risco de mortalidade associada à obesidade.
Amilina também entra em campo
. A amicretina combinará a amilina com o GLP-1: também chamada de IAPP, ela é produzida pelo pâncreas para equilibrar os níveis de glicose no sangue, regulando a atividade metabólica. O hormônio foi capaz de provocar uma perda de peso equivalente a 13% em apenas 12 semanas.
Ao apresentar os resultados iniciais dos testes clínicos para a imprensa, em maio de 2024, o CEO da Novo Nordisk, Lars Fruergaard Jørgensen, afirmou que “a amicretina vai se tornar o tratamento líder entre os medicamentos para obesidade no mundo.”
O papel do FGF21 na obesidade
O FGF21 é outro hormônio que tem atraído interesse da indústria farmacêutica na luta contra a obesidade. Ele está em estudos iniciais como parte de dois remédios que combinam outros hormônios. Um deles é apenas com o GLP-1 e outro o combina todos os outros 3Gs. Os primeiros testes em humanos de ambas as drogas deve começar em breve.
Estudos têm mostrado que o FGF21 pode influenciar a termogênese, ou seja, a produção de calor, especialmente no tecido adiposo marrom, que é mais eficiente na queima de gordura e pode aumentar, ainda que de forma muito sutil, o potencial já gigante da retratutida na perda de peso.
Em ratos, o FGF21 demonstrou ter efeitos cardioprotetores e potencial para aumentar a saúde e a longevidade. Embora as pesquisas sobre o hormônio ainda estejam em estágios iniciais, ele se apresenta como uma ferramenta promissora no tratamento da obesidade. A substância desempenha um papel importante na regulação do metabolismo, especialmente durante a restrição de proteínas.
Tratamento mais abrangente
Para os médicos, o grande horizonte de possibilidades de uso dos hormônios do sistema digestivo para tratamentos farmacológicos mostra que no futuro será possível tratar a obesidade leve e moderada apenas com remédios.
“Imagino que, no futuro, teremos menos necessidade de recorrer a cirurgias como a bariátrica, que ficará restrita a casos especiais e de IMCs muito elevados, o que permitirá também que essa cirurgia chegue justamente para os pacientes que mais precisam dela, o que não vem acontecendo”, explica Geloneze, da Unicamp.
No entanto, ele destaca a importância de que os medicamentos sejam combinados com apoio psicológico, mudanças no estilo de vida e, quando necessário, cirurgia. Para ele, o futuro do tratamento da obesidade passa pela união entre tratamentos inovadores e estratégias multidimensionais.
“O medicamento é suporte, mas aliado com o acolhimento e a intervenção psicológica, dietética e na atividade física, conseguiremos fazer um tratamento para a obesidade que não precise ser um sinônimo de sacrifício, frustração e culpa — como tem sido”, conclui Geloneze.
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