OPINIÃO
O que se pode
Estou de férias, queridos. Férias. Não é docinha essa palavra? Escrevo olhando para o mar, num calor de usar short o dia todo. Podia ter feito uma pausa de nosso encontro também, mas fiz questão de não fazê-lo pra manter registro dos dias bons. Esse é o meu trabalho nas férias: manter registro dos dias bons. Eu acordo de manhã e penso “minha nossa, Roberta, hoje tu vai entrar no mar, comer peixe sem talher, pedir algodão doce na praia sem nem lembrar quantos gramas de açúcar tem essa iguaria (que sabemos é só açúcar – e corante).
Talvez, na verdade, seja esse meu trabalho da vida, sabe? Manter registro dos acontecimentos, dizer pra mim de mim, ainda que os acontecimentos não sejam dos mais fotografáveis. Minhas filhas, quando menores, não gostavam muito desse hábito.
“Mãe, para de legendar o dia”. Eu achava graça e me entristecia um pouquinho ao mesmo tempo. Queria que elas também se lembrassem de como estão diante do que acontece. Hoje percebo que o fazem, mas a seu modo, como deve ser.
Nesses primeiros dias de férias li O filho de mil homens de Hugo Mãe. Vocês leram? A coisa é tão grande, tão impressionante, que me peguei pensando se cabe na categoria literatura. Não sei, acho que é maior do que literatura. Juro a tu? Sabe quando você começa grifando as frases bonitas de um texto e desiste antes da metade. Não porque há pouco o que ser grifado, mas porque há pouquíssimo ou quase nada que não mereça o grifo.
Pois que dividi a rede, a praia, o peixe e o algodão doce com um medo absurdo de que o livro desandasse. De que o que estava indo bem tomasse outro rumo, ou ainda de que o desejo de grifar findasse, a inspiração de Hugo Mãe fosse pras cucuias. De que ele me deixasse meio sozinha, sabe? Não vou, naturalmente, contar do fim do livro. Quase um pecado. Mas te digo que chorei de amor mais de uma vez enquanto li macio cada letrinha. Vi que minhas filhas viram o que se passava entre a história e eu. Registraram. E deixo aqui um dos muitos momentos do meu livrinho. É sobre a história e é sobre elas também: ser o que se pode é felicidade.
Boa semana, queridos.
Roberta D’Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
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