POLÍCIA

Casos de violência doméstica e risco de feminicídio tendem a crescer no fim do ano: agressor dentro de casa

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A violência doméstica contra mulheres tem mostrado números alarmantes em Mato Grosso, onde índice aponta que 44,7 mulheres a cada 100 mil habitantes sofreram ou sofrem violência doméstica, conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública publicado neste ano. Tal situação tende a se agravar ainda mais durante o período de fim de ano, quando agressor e vítima convivem por mais tempo do que o habitual devido às férias e/ou período de recesso, além do aumento de consumo de bebidas alcoólicas e entorpecentes. 

De acordo com a delegada de Polícia Civil, Jannira Laranjeira, que é especialista em combate à violência contra a mulher, esses números são ainda mais expressivos, considerando que refletem apenas os casos registrados oficialmente via boletins de ocorrência e ligações para o 190.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

delegada Jannira Laranjeira

“É justamente nesse final de ano, quando temos as festas comemorativas, que todo tipo de violência, que acontece numa unidade familiar, tende a aumentar. Primeiro pela convivência, segundo pelo consumo de bebidas alcoólicas ou drogas ilícitas e depois pela pouca tolerância e bom convívio das pessoas. Então, se eu já estou em um relacionamento abusivo, ou se eu já vivenciei um relacionamento abusivo, eu preciso ficar alerta aos sinais, principalmente o fato de eu ter rompido com esse relacionamento, pois isso não me dá a certeza de que eu estou segura”, declara Jannira.

É justamente nesse final de ano, quando temos as festas comemorativas, que todo tipo de violência, que acontece numa unidade familiar, tende a aumentar


Delegada Jannira Laranjeira

A delegada ressalta que as mulheres que já vivenciaram relacionamentos abusivos precisam redobrar a atenção nesse período festivo, que pode ser um gatilho para o pior cenário: o feminicídio. 

Um dos casos registrados este ano ocorreu em outubro, quando o então vereador por Ribeirão Cascalheira (a 772 km de Cuiabá), José Soares de Sousa, conhecido como Zé Fadiga (MDB), de 45 anos, que matou a ex-esposa Olindina Maria da Silva, de 42 anos, e o ex-cunhado, Odelio Jose da Silva, de 48 anos. Em seguida, Zé Fadiga cometeu suicídio.

No mês de junho, o vereador, que ainda estava casado com a vítima, havia sido preso por ameaçar e agredir Olindina, brutalmente, além de mantê-la em cárcere privado. À época, o vereador  passou por audiência de custódia e foi solto após pagar fiança no valor de R$ 2 mil

“Se já houve histórico de lesão corporal, controle excessivo, ciúmes ou violência sexual, é fundamental que a mulher ative sua rede de proteção e busque ajuda imediata”, afirma Jannira, que destaca sobre a importância de cautela principalmente durante os primeiros 150 dias após a separação que, segundo ela, é um período crítico, com um risco elevado de agressões fatais.

Pequenas agressões podem levar a casos graves

Jannira, que ministra palestras sobre violência doméstica contra a mulher, explica que a violência física, mesmo em formas mais leves, pode aumentar em até 20 vezes as chances de um feminicídio. Já a violência sexual, como a imposição de relações sexuais contra a vontade da vítima, aumenta esse risco em até 7 vezes. Para a delegada, isso reforça a necessidade do afastamento imediato e do pedido de medidas protetivas, como o “botão do pânico” e colocação de tornozeleira eletrônica no agressor, para garantir a segurança da mulher.

Outro ponto destacado por Jannira, também como um fator de risco, é a coabitação entre agressor e vítima, ou seja, aqueles que não estão mais em um relacionamento amoroso, mas ainda dividem a mesma casa, seja por dificuldades financeiras ou até mesmo uma forma do agressor manipular a vítima e evitar ou demorar, propositalmente, o processo de divisão de bens, mesmo sem a formalização do casamento. 

No mês de fevereiro, Waldecir Cláudio da Conceição, de 50 anos, matou a ex-esposa Viturina Ares Cebalho a facadas, dentro do bar dela, e tentou tirar a própria vida logo em seguida, mas sobreviveu e foi preso. Durante o crime, o filho do casal, de apenas 14 anos, se deparou com a cena, após ouvir os gritos da mãe. 

“O filho contou pra gente que o pai já tentou matar a mãe outras vezes, anos atrás. Falou que a mãe sofria muito, que ele batia muito nela na época. O filho falou que até imaginava que um dia isso pudesse acontecer”, afirmou a delegada Paula Gomes Araújo, titular da Delegacia da Mulher de Cáceres, que estava à frente do caso. 

Muitas vezes a mulher se vê presa no ciclo de violência, com dificuldades para romper definitivamente com o abusador, devido a questões financeiras, emocionais ou relacionadas aos filhos


Delegada Jannira Laranjeira

“Mulheres que moram com o agressor, em especial aquelas que dependem financeiramente dele ou têm filhos, estão ainda mais vulneráveis. Muitas vezes a mulher se vê presa no ciclo de violência, com dificuldades para romper definitivamente com o abusador, devido a questões financeiras, emocionais ou relacionadas aos filhos”, explica Jannira.

Necessidade de atenção e apoio

Questionada sobre o julgamento que as vítimas de violência doméstica sofrem quando decidem continuar o relacionamento com seu agressor, Jannira diz que isso acontece devido à dependência emocional, financeira ou até mesmo pelo medo de perder a guarda dos filhos. “Não podemos julgar a vítima ou sua rede de apoio familiar. O importante é oferecer acolhimento e ajudá-las a romper com o ciclo de violência”, defende.

No início deste ano, Francisca Alves do Nascimento, de 35 anos, foi morta a facadas no meio da rua, no bairro Alvorada, em Lucas do Rio Verde (a 331 km de Cuiabá), pelo ex-companheiro, Marcelo Ochoa de Freitas, 46 anos, que foi preso. Em depoimento, o feminicida chegou a culpar Francisca pela própria morte, dizendo que a vítima foi até ele e que, se ela não tivesse feito isso, não teria morrido. 

Para a delegada a prevenção do feminicídio e da violência sexual depende do envolvimento de todos na identificação de sinais de abuso e na busca ativa por medidas de proteção. “O alerta é claro: a violência doméstica não pode ser ignorada, e é fundamental que as vítimas busquem ajuda antes que seja tarde demais”, afirma.

“O fortalecimento das redes de apoio à mulher precisa ser o foco de familiares e amigos das vítimas, que precisam ser ouvidas e, mais do que isso, precisam de um suporte contínuo”, completa.



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