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Atraídas por alimentos, onças ficam vulneráveis e colocam humanos em risco

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A ceva – oferta intencional de alimento a animais silvestres -, embora não ocorra mais nos passeios de observação de onças-pintadas na região de Porto Jofre, no Pantanal mato-grossense, foi determinante para a formação de uma “cultura de aproximação”, o que levou estes animais a tolerar a presença humana. Entretanto, tal interação pode levar a prejuízos ao meio ambiente e aos animais e também coloca em risco a segurança dos seres humanos. Um exemplo é o caso que ocorreu recentemente, e ganhou repercussão nacional, em que um caseiro de Mato Grosso do Sul foi morto por uma onça-pintada.  

Nick Garbutt/Panthera Brasil

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Segundo a professora e pesquisadora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Eveline Teixeira Baptistella, atualmente, as onças-pintadas de Porto Jofre se transformaram em animais altamente tolerantes à presença humana. Essa tolerância, frisa, é uma “faca de dois gumes”, pois dificulta que os animais distingam humanos bem-intencionados de caçadores. 

“Esse animal se tornou vulnerável a pessoas mal-intencionadas. Em Porto Jofre existe uma comunidade propensa a protegê-las, porque as onças são, de certa forma, trabalhadoras, já que aceitam a presença de humanos e estes as usam para o turismo, elas ali têm uma relação social. Mas essa ceva cria vulnerabilidade”, destaca.

Além da ameaça de violência, a pesquisadora chama a atenção para os riscos sanitários provocados pela aproximação forçada entre espécies. Ela cita como exemplo os casos em que macacos morreram infectados por herpes humana, em municípios mato-grossenses, após receberem alimentos de visitantes. “Existe esse risco também na ceva. Humanos oferecendo salgadinho, pedaço de comida, fruta mordida”, salienta.

Outro fator preocupante, segundo Eveline, é a possibilidade de os animais expressarem comportamentos naturais de defesa em situações de estresse. A pesquisadora usa gatos e cachorros como exemplo, destacando que, quando se tem intimidade com animais e fazemos algo que os incomoda, esses animais irão arranhar ou morder. 

É preciso que, na nossa relação, a gente olhe para esses animais como refugiados ambientais, seres que estão numa situação extrema de vulnerabilidade, de desespero, e a gente tenha respeito profundo por eles


Eveline Teixeira Baptistella

“Mas e uma onça? Se ela é uma onça tolerante – eu não digo uma onça que virou o animal de estimação, mas uma onça tolerante -, pode ter sim uma expressão de comportamento natural. E uma onça de mau humor pode simplesmente te dar uma patada e aí, de repente, ela te desfigura. Um jacaré, falando, por exemplo, do Parque das Águas, em Cuiabá, pode errar o cálculo da mordida se um turista decidir dar um peixe ou algum tipo de alimento, por achar que ele é mansinho”, exemplifica.

A pesquisadora destaca ainda que a ceva não intencional, como restos de peixe na beira do rio, também contribui para a aproximação perigosa entre humanos e animais. “As onças começam a ir atrás do resto de peixe, porque é um alimento mais fácil. Essa realidade é global, mas no Pantanal ela é muito intensa”, afirma.

Segundo Eveline, embora Porto Jofre seja um caso singular de mudança na matriz econômica, com a substituição da caça pelo turismo, o conflito entre humanos e onças persiste em outras regiões. “Ainda existe, sim, esse conflito. Em muitos lugares, ela ainda é caçada e considerada ameaça para os rebanhos. Não existe um paraíso das onças”, pontua.

A pesquisadora defende mudanças estruturais na relação entre sociedade e a fauna silvestre, baseadas em respeito e ética. “Eles estão entre nós, eles já não têm mais para onde ir. A gente precisa respeitá-los, e isso inclui não dar comida, cobrar o governo para criar ambientes e estratégias para que eles possam ter uma vida digna sem a oferta de ceva”, defende,

Eveline lembra que a regulamentação pioneira em Mato Grosso sobre a observação de onças foi um avanço, mas é ainda insuficiente diante do aumento da monocultura e da crise climática. “Vamos precisar, cada vez mais, regulamentar essa relação, começar a educar os humanos para essa proximidade e criar modelos de convivência para que os animais continuem existindo”, argumenta.

Para a pesquisadora, o turismo pode ser um aliado da conservação, desde que feito de forma ética, sem excessos ou exploração. Como exemplo positivo, cita o Sesc Pantanal, que eliminou práticas como alimentar jacarés para atrair turistas: “O turista precisa fazer escolhas éticas, o trade turístico deve assumir a ética, e o Estado precisa agir”.

A pesquisadora conclui com um apelo: “É preciso que, na nossa relação, a gente olhe para esses animais como refugiados ambientais, seres que estão numa situação extrema de vulnerabilidade, de desespero, e a gente tenha respeito profundo por eles”.





Fonte: RDNews

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