CIDADES
De fábrica abandonada à floresta: escola cria projeto para transformar área em preservação ambiental
Uma antiga fábrica de cerveja, desativada e esquecida há mais de uma década, localizada a apenas 200 metros da Escola Estadual Pascoal Moreira Cabral, em Cuiabá, pode se tornar um símbolo de resistência ambiental, educação crítica e mobilização comunitária. Com cerca de 55 hectares, a área abriga uma das últimas porções de mata nativa em estágio avançado de regeneração na região. Agora, alunos e professores querem transformá-la em uma Área de Preservação Permanente (APP).
O movimento faz parte do projeto “Restaura Natureza”, iniciativa vinculada à Olimpíada de Restauração de Ecossistemas da WWF-Brasil, que a escola está participando. A proposta é simples, mas ousada: recuperar a área degradada ao redor do antigo complexo industrial, preservar a mata ciliar próxima ao rio e dar um novo destino à estrutura abandonada – transformando-a em um polo educacional e comunitário sustentável.
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Destacado em vermelho está a EE Pascoal Moreira Cabral. Em azul, a fábrica de cerveja abandonada.
Ao
, a professora de filosofia Karine Krewer – que atua no projeto ao lado dos colegas Ana Lúcia Pena (docente de Física), Carlos Alberto Caetano (que leciona Sociologia) e Rodrigo Silva (professor de Língua Portuguesa) – afirmou que o objetivo do projeto é atender a comunidade e manter a área preservada.
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Fábrica de cerveja abandonada, vista de cima.
“Queremos propor que essa área seja transformada em uma APP ou uma APA [Área de Proteção Ambiental[, e que essa antiga fábrica seja retomada pelo poder público”, disse Karine que destacou que cerca de 150 alunos também participam da ação, em especial as turmas do 1º e 2º ano do ensino médio.
Segundo a docente, além do apelo ecológico, o projeto carrega um debate social potente. “Estamos trabalhando os conceitos de pertencimento, sociedade e também o racismo ambiental. Queremos que os alunos entendam que lutar pela natureza é também lutar por justiça social”, destacou.
Entre dois rios
A região ao redor da escola, situada entre dois rios, sofre com pressões típicas da expansão urbana desordenada: especulação imobiliária, ocupações irregulares e falta de infraestrutura adequada. “Descobrimos que tem gente loteando a área verde aqui na região. Isso é muito comum em bairros da cidade. Mas quem paga as consequências é a comunidade, depois de cinco, dez anos”, alertou Karine.
Apesar da escola já estar no limite de sua capacidade – administrando até um anexo em prédio improvisado -, os professores vislumbram a criação de uma escola modelo em sustentabilidade, com anfiteatro, horta, compostagem, laboratório, cinema e o reaproveitamento de água. “A gente queria a primeira escola 100% sustentável de Mato Grosso”, sonha a professora.
Annie Souza/Rdnews

Karine Krewer, professora da EE Pascoal Moreira Cabral.
“Queremos que os alunos entendam que lutar pela natureza é também lutar por justiça social”
Professora Karine Krewer
A mobilização extrapola os muros escolares. Além da plataforma online da WWF, a comunidade está sendo convocada a participar por meio de abaixo-assinados, reuniões com associações de moradores e encontros com lideranças religiosas locais. “Isso aqui não é uma pauta de partido, nem de religião. É uma pauta da comunidade”, disse Karine.
Nos bastidores, os envolvidos articulam conversas com políticos e aguardam o posicionamento do Governo do Estado. Enquanto isso, seguem as ações de sensibilização ambiental no bairro, como o plantio de mudas nativas e frutíferas em áreas vulneráveis, e a organização para cuidar das novas árvores durante o período de estiagem.
“Quando a gente começa a mexer, descobre muita coisa. A fábrica ficou dez anos esquecida, mas agora que começamos a nos movimentar, já tem gente cortando cerca, limpando o entorno, derrubando árvores, como se dissessem: olha estamos cuidando”, relata a professora, que externa o temor de que a área seja alvo de interesses privados, o que, para ela, aumenta a urgência da ação.
“Então, o que a gente quer? Que a comunidade perceba que quem tem que se responsabilizar, nesse momento, somos nós, comunidade de cada bairro da cidade. Porque a especulação imobiliária avança sobre o território, lucra com ele. Os cargos públicos se responsabilizam enquanto eles estão naquela gestão, emitem alvarás e licenças e depois a comunidade passa a perceber o impacto”, declarou.
Vote no projeto e assine a petição
A escola convida a população a apoiar a proposta. A votação popular segue aberta na plataforma da WWF até o dia 30 deste mês. Os interessados podem votar por meio do link do projeto “Restaura Natureza”. Além disso, uma petição pública foi criada para sensibilizar autoridades estaduais a reconhecerem a área como de interesse ambiental e educacional. Para assinar basta acessar o link no site change.org.
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