SAÚDE
Popular nas redes, “terapia da rejeição” pode agravar saúde mental
A prática, que não tem embasamento científico, consiste em se expor a situações desconfortáveis ou vergonhosas, que muito provavelmente vão resultar em rejeição, no trabalho, no transporte público ou nas interações com pessoas desconhecidas.
A ideia é diminuir o medo da rejeição ao ouvir um “não”. Ao conseguir enfrentar essas situações de forma controlada, o indivíduo se tornaria mais resiliente e confiante para lidar com o fracasso ou a falta de aceitação.
Entre as situações constrangedoras estão pedir dinheiro emprestado a um estranho na rua; pedir um abraço em meio à multidão; cumprimentar desconhecidos dentro do metrô; e até ir a uma cafeteria e pedir determinado produto de graça.
Na realidade, porém, a pessoa não quer nada disso e não se importa com a resposta que vai receber – o ponto é vencer a barreira e conseguir fazer a pergunta. Tudo isso registrado pela câmera do celular e compartilhado nas redes sociais.
Exposição não é igual a rejeição
A “terapia da rejeição” seria uma forma simplificada da “terapia de exposição”, essa sim uma técnica consagrada e amplamente utilizada por psicólogos como parte da (TCC) no tratamento de transtornos específicos, como síndrome do pânico, fobias sociais, medo de andar de avião, ansiedade generalizada, entre outros.
Como o próprio nome diz, consiste em expor o paciente gradualmente a uma situação que ele teme para diminuir sua resposta excessiva de medo por meio da dessensibilização. Normalmente começa com imagens, uso de realidade virtual e só depois a pessoa tenta ter contato direto com a situação temida ou o objeto fóbico.
“O medo pode até persistir por um período, mas de uma forma mais controlada, diminuindo o nível de sofrimento”, explica o psiquiatra Elton Kanomata, do Hospital Israelita Albert Einstein. Em paralelo, o paciente também costuma treinar para diminuir seus níveis de ansiedade e tensão.
A terapia da rejeição, ao contrário, não é um tratamento formal. Além disso, o fato de a pessoa filmar e postar situações constrangedoras nas redes sociais pode até piorar quadros de ansiedade em indivíduos predispostos.
“A ideia de se expor a contextos muito bizarros não faz sentido. Teria algum sentido se a pessoa se expusesse a situações do seu cotidiano para desenvolver habilidades sociais e socioemocionais para a vida. Mas passar vergonha por passar é um desgaste emocional desnecessário e não traz nenhum ganho”, observa Kanomata.
As consequências podem ir além daquele momento em que a pessoa ouviu o “não” e foi rejeitada. Ao publicar a experiência nas redes sociais, o indivíduo volta a se expor e se coloca sob julgamentos e críticas de inúmeras pessoas.
“As novas gerações não estão acostumadas a ouvir ‘não’, e muitas pessoas saem em busca de soluções rápidas e simplificadas. Se essa pessoa não conseguir o engajamento que gostaria nas redes sociais e receber comentários ruins, por exemplo, isso pode piorar um quadro emocional”, alerta o psiquiatra.
Embora a “terapia da rejeição” possa parecer uma abordagem interessante para aqueles que buscam superar a insegurança, Kanomata ressalta que ela não deve ser encarada como uma solução imediata nem substituir tratamentos reconhecidos.
“Se for para trabalhar de fato essa questão da rejeição e da frustração, é importante que esse processo seja feito por um profissional que possa acompanhar o paciente ao longo das sessões e discutir situações, para ajudá-lo a lidar com o enfrentamento das situações e evitar que ele se sinta mais ansioso ou desvalorizado”, propõe o médico.
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